RESPOSTA A REPORTAGEM DA REVISTA FORBES
- 15 de jan.
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Quando se fala da Astrologia em uma reportagem de uma revista de longo alcance como a Forbes, invariavelmente ela é abordada de modo pejorativo e crítico. Dentro deste contexto, esta nova reportagem é curiosa, pois segundo o psicólogo Mark Travers, metade da Astrologia está certa, enquanto a outra metade está errada - e isso já é de alguma valia, pois há uma parte da Astrologia que ele reconhece como legítima e se salva.
A parte certa e legítima: o zodíaco, com seus signos, constituem uma tipologia sofisticada da personalidade. Aliás, “a longevidade do zodíaco é prova de uma boa taxonomia de personalidade”, isto é, ele serve como parâmetro, SIM, para classificar e diferenciar os seres humanos por tipos.
A parte errada: a dependência desta taxonomia da personalidade da mecânica celeste. Como a reportagem diz, “o zodíaco não precisa de mecânica celeste para ser útil”.
Eu, Edil Carvalho, fico muito feliz que ele legitime uma parte. Quanto a parte que ele critica, penso que há muitos tópicos a se considerar, que sequer são expostos pelo psicólogo e pela reportagem.
Primeiro, o mais óbvio: o zodíaco é a representação matemática dos equinócios e solstícios e de tudo o que ocorre entre eles, ou seja, da variação da luz solar ao longo das estações do ano. Nas estações equinociais, primavera e outono, a duração dos dias e das noites é igual ou menor entre si, o que não ocorre nas estações solsticiais, verão e inverno, quando a duração dos dias e das noites é muito desigual e maior entre si. Aliás, as características atribuídas aos signos, como quente e frio, seco e úmido, advém destas variações sazonais, de modo que não vejo como desvincular a tipologia zodiacal da mecânica celeste, isto é, do céu, de sua base natural. Ela é fruto disso, não podendo, assim, ser considerada à revelia disso.
Segundo tópico: a Astrologia é um conhecimento de natureza interdisciplinar. De um lado, o homem; do outro, a natureza que o cerca. Ela é tão interdisciplinar como a geografia e a ecologia, mas mais complexa, na medida em que a partir desta relação entre o homem & a natureza ela consegue descrever os traços mais característicos da personalidade de uma pessoa, como também prever o que vai lhe suceder ao longo da sua vida. A complexidade, a dificuldade - e a maravilha - da Astrologia reside justamente nisso: ela leva em última instância tudo aquilo que pode descrito a partir desta relação que o homem tem com a natureza que o cerca. E como tal, ela não pode ser bem compreendida se for apartada e divorciada de sua base natural, como Mark Travers faz. O problema deste psicólogo é querer abordar a Astrologia a despeito da sua complexidade, ou melhor, sem conhecer nada à respeito da sua própria natureza. Se ele reconhecesse isso, saberia que a tipologia astrológica não pode ser considerada à revelia da mecânica celeste, por mais que esta tipologia seja útil, na medida em que corresponde às quatro dimensões psíquicas, como a reportagem descreve.
Terceiro tópico: ao eliminar o fundamento e a base natural da Astrologia (o céu, com toda sua mecânica) Mark Travers se sente muito confortável para descartar e rejeitar também a noção de CAUSALIDADE, pois como diz a reportagem, “o erro de crentes e céticos é tratar a astrologia como afirmação de causalidade. Crentes acham que os planetas causam a personalidade. Céticos rejeitam tudo porque essa afirmação é falsa. Mas o zodíaco não precisa de mecânica celeste para ser útil”.
E ele assim o faz, cabe observar, por acreditar que a Astrologia, baseada na natureza, SÓ PODE SER EXPLICADA POR UMA CAUSALIDADE. Mas quem disse que a Astrologia, para ser bem entendida e explicada, precisa de uma causa natural? Jung, por exemplo, precisou de bem menos para explicar a natureza do fenômeno astrológico, ao definir a Sincronicidade como um “princípio de conexão ACAUSAL” cuja característica principal é “a coincidência significativa” entre fatos externos e internos. Aliás, cabe lembrar que a causalidade natural não é a única maneira de explicar o fenômeno astrológico: afinal, para alguns astrólogos, há uma homologia estrutural entre astros e psiquê, isto é, uma identidade entre a ordem celeste e a ordem psíquica; para outros, não há homologia estrutural nenhuma, pois o homem projetou no céu certos significados que acabaram retroagindo depois sobre ele próprio: há o símbolo criado. Para outros, há o símbolo natural, pois a natureza mesma designa significados: ela fala. Em suma: reduzir a explicação do fenômeno astrológico a uma causalidade natural para poder rejeitá-lo é ignorar sua complexidade - e essa complexidade precisa ser acatada e enfrentada.
Fico muito feliz que o psicólogo americano Mark Travers tenha reconhecido o valor da tipologia zodiacal, do que poderia falar. Mas como, na mesma medida, fico atônito, preciso dizer: fico muito atônito quando alguém, com currículo e visibilidade como a dele, fala da Astrologia, desconsiderando sua complexidade, achando que ela pode ser legitimada - ou deslegitimada - com argumentos tão simplistas. Se as pessoas que decidem falar sobre a astrologia soubessem o quanto ela exige conhecimento de diversas ordens para ser bem compreendida - como astronomia, cosmologia, epistemologia, simbologia e história, por exemplo - elas só poderiam tomar duas atitudes: estudar o assunto - ou não se pronunciar a respeito do mesmo.
EDIL CARVALHO
astrólogo
doutor em Filosofia Antiga

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